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A Santíssima
Trindade
O PAI
I "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo"
Os
cristãos são batizados "em nome do Pai,
do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19). Antes
disso eles respondem "Creio" à tríplice
pergunta que os manda confessar sua fé no Pai, no Filho
e no Espírito: "Fides omnium christianorum in
Trinitate consistit" ("A fé de todos os cristãos
consiste na Trindade") (S. Cesáreo de Arlés,
symb.).
Os
cristãos são batizados "em nome" do
Pai e do Filho e do Espírito Santo e não "nos
nomes" destes três (cf. Profissão de fé
do Papa Vigilio em 552: DS 415), pois só existe um
Deus, o Pai todo-poderoso, seu Filho único e o Espírito
Santo: a Santíssima Trindade.
O
misterio da Santíssima Trindade é o mistério
central da fé e da vida cristã. É o mistério
de Deus em si mesmo, é, portanto, a fonte de todos
os outros mistérios da fé, é a luz que
os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial
na "hierarquia das verdade de fé" (DCG 43).
"Toda a história da salvação não
é senão a história da via e dos meios
pelos quais Deus verdadeiro e único, Pai, Filho e Espírito
Santo, se revela, reconcilia, consigo e une a si os homens
que se afastam do pecado" (DCG 47).
Neste
parágrafo se exporá brevemente de que modo é
revelado o mistério da Santíssima Trindade (I),
de que maneira a Igreja formulou a doutrina da fé sobre
este mistério (II), e, finalmente, de que modo, através
das missões divinas do Filho e do Espírito Santo,
Deus Pai realiza seu "desígnio benevolente”
de criação, de redenção, e de
santificação (III).
Os
Padres da Igreja distinguem entre a "Theologia"
e a "Oikonomia", designando com o primeiro termo
o mistériod a vida íntima do Deus-Trindade,
com o segundo todas as obras de Deus através das quais
ele se revela e comunica sua vida. É através
da "Oikonomia" que nos é revelada a "Theologia";
mas, inversamente, é a "Theologia", que ilumina
toda a "Oikonomia". As obras de Deus revelam quem
ele é em si mesmo; e inversamente, o mistério
do seu Ser íntimom ilumina a compreensão de
todas as suas obras. Acontece o mesmo, analogicamente, entre
as pessoas humanas. A pessoa mostra-se no seu agir, e quanto
melhor conhecemos uma pessoa, tanto melhor compreendemos o
seu agir.
A
Trindade é um mistério de fé no sentido
estrito, um dos “mistérios escondidos em Deus,
que não podem ser conhecidos se não forem revelados
do alto" (Cc. Vaticano I: DS 3015. Deus, certamente,
deixou marcas de seu ser trinitário em sua obra de
Criação e em sua Revelação ao
long do Antigo Testamento. Mas a intimidade de seu Ser como
Trindade Santa constitui um mistério inacessível
à pura a razão e até mesmo à fé
de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus
e da missão do Espírito Santo.
II A revelação
de Deus como Trindade
O Pai revelado pelo Filho
A invocação
de Deus como "Pai" é conhecida em muitas
religiões. A divindade é muitas vezes considerada
como "pai dos deuses e dos homens". Em Israel, Deus
é chamado de Pai enquanto Criador do mundo (Cf. Dt
32,6; Ml 2,10). Deu é Pai, mais ainda, em razão
da Aliança e do dom da Lei a Israel, seu "filho
primogênito" (Ex 4,22). É também
chamado de Pai do rei de Israel (cf. 2 S 7,14). Muito particularmente
ele é "o Pai dos pobres", do órfão
e da viúva, que estão sob sua proteção
de amor (cf. Sal 68,6).
O designar
a Deus com o nome de “Pai", a linguagem da fé
indica principalmente dois aspectos: que Deus é origem
primeira de tudo e autoridade transcendente, e que ao mesmo
tempo é bondade e solicitude de amor para todos os
seus filhos. Esta ternura paterna de Deus pode também
ser expressa pela imagem da maternidade (cf. Is 66,13; Sl
131,2) que indica mais a imanência de Deus, a intimidade
entre Deus e a sua criatura. A linguagem da fé inspira-se
assim na experiência humana dos pais (genitores), que
são de certo modoos primeiros representantes de Deus
para o homem. Mas esta experiência humana ensina também
que os pais humanos são falíveis e que podem
desfigurar o rosto da paternidade e da maternidade. Convém
então lembrar que Deus transcende a distinção
humana dos sexos. Ele não é nem homem nem mulher,
é Deus. Transcende tampém à paternidade
e à maternidade humanas (cf. Sl 27,10), embora seja
a sua origem e a medida (cf. Ef 3,14; Is 49,15): Ninguém
é pai como Deus o é.
Jesus revelou
que Deus é "Pai" num sentido inaudito: não
o é somente enquanto Criador, mas é eternamente
Pai em relação a seu Filho único, que
reciprocamente só é Filho em relação
a seu pai “Ninguém conhece o Filho senão
o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho,
e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11,27).
É
por isso que os apóstolos confessam Jesus como "o
Verbo” que “ no início estava junto de
Deus” e que “é Deus" (Jo 1,1), como
"a imagem do Deus invisível" (Cl 1,15), como
"o resplendor de sua glória e a expressão
do seu ser" Hb 1,3).
Na esteira
deles, seguindo a Tradição apostólica,
a Igreja, no ano de 325, no primeiro Concílio Ecumênico
de Nicéia, confessou que o Filho é "consubstancial"
ao Pai, isto é, um só Deus com Ele. O segundo
Concílio Ecumênico, reunido em Constantinopla
em 381, conservou esta expressão na sua formulação
do Credo de Nicéia e confessou "o Filho Único
de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, luz
luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não
criado, consubstancial ao Pai" (DS 150).
O Pai e o Filho revelados pelo Espírito
Antes
da sua Páscoa, Jesus anuncia o envio de "outro
Paráclito" (Defensor), o Espírito Santo.
Em ação desde a criação (cf. Gn
1,2), depois de ter outroral "falado pelos profetas"
(Credo de Nicéia-Constantinopla), ele estará
agora junto dos discípulos e neles (cf. Jo 14,17),
a fim de ensiná-los (cf. Jo 14,16) e conduzi-los “à
verdade inteira” (Jo 16,13). O Espírito Santo
é revelado assim como uma outra pessoa divina em relação
a Jesus e ao Pai.
A origem eterna
do Espirito revela-se na sua missão temporal. O Espírito
Santo é enviado aos Apóstolos e à Igreja
tanto pelo Pai em nome do Filho, como pelo Filho em pessoa,
depois que este tiver voltado para junto do Pai (cf. Jo 14,26;
15,26; 16,14). O envio da pessoa do Espírito após
a gloficação de Jesus (cf. Jo 7,39), revela
em plenitude o mistério da Santíssima Trindade.
A fé
apostólica no tocante ao Espírito foi confessada
pelo segundo concílio ecumênico em 381 em Constantinopla:
"Cremos no Espírito Santo, que é Senhor
e que dá a vida, que procede do Pai" (DS 150).
Com isto a Igreja reconhece o Pai como "a fonte e a origem
de toda a divindade" (Cc. de Toledo VI, ano 638: DS 490).
Ma a origem eterna do Espírito Santo não deixa
de estar vinculada à do Filho: "O Espírito
Santo, que é a Terceira Pessoa da Trindade, é
Deus, uno e igual ao Pai e ao Filho, da mesma substância
e também da mesma natureza... Contudo, não se
diz que Ele é somente o Espírito do Pai, mas
ao mesmo tempo o espírito do Pai e do Filho" (Cc.
de Toledo XI, ano 675: DS 527). O Credo da Igreja, do Concílio
de Constantinopla (ano 381) confessa: "Com o Pai e o
Filho ele recebe a mesma adoração e a mesma
glória" (DS 150).
A tradição
latina do Credo confessa que o Espírito "procede
do Pai e do Filho (Filioque)". O Concílio de Florença,
em 1438, explicita: "O Espírito Santo tem sua
essência e seu ser subsistente ao mesmo tempo do Pai
e do Filho e procede eternamente de Ambos como de um só
Pincípio e por uma única expiração...E
uma vez que tudo o que é do Pai, o Pai mesmo o deu
ao seu Filho Único ao gerá-lo, excetuando o
seu ser de Pai, esta própria processão do Espírito
Santo a partir do Filho, ele a tem eternamente de Seu Pai
que o gerou eternamente" (DS 1300-1301).
A afirmação
do filioque não figurava no símbolo professado
em 381 em Constantinopla. Mas com base em uma antiga tradição
latina e alexandrina, o Papa S. Leão o havia já
confessado dogmaticamente em 447 (cf. DS 284) antes que Roma
conhecesse e recebesse, em 451, no concílio de Calcedônia,
o símbolo de 381. O uso desta fórmula no Credo
foi admitido pouco a pouco na liturgia latina (entre os séculos
VIII e XI). Todavia, a introdução do Filioque
no Símbolo de niceno-constantinopolitano pela liturgia
latina constitui, ainda hoje, um ponto de discórdia
em relação às igrejas ortodoxas.
A tradição
oriental põe primeiramente em relevo o caráter
de origem primeira do Pai em relação ao Espírito.
Ao confessar o Espírito como "procedente do Pai"
(Jo 15,26), ela afirma que o Espírito procede do Pai
pelo Filho (cf. AG 2). A tradição ocidental
põe primeiramente em relevo a comunhão consubstancial
entre o Pai e o Filho afirmando que o Espírito Procede
do Pai e do Filho (Filioque). Ela o afirma "de forma
legítima e racional" (Cc. de Florença,
1439: DS 1302), pois a a ordem eterna das pessoas divinas
na sua comunhão consubstancial implica não só
que o Pai seja a origem primeira do Espírito enquanto
"princípio sem princípio" (DS 1331),
mas também, enquanto Pai do Filho Único, que
seja com ele "o único princípio do qual
procede o Espírito Santo" (Cc. de Lyon II, 1274:
DS 850). Esta legítima complementaridade, se não
fo radicalizada, não afeta a identidade da fé
na realidade do mesmo mistério confessado.
III A Santíssima Trindade
na doutrina da fé
A formação do dogma
trinitário
A verdade revelada
da Santíssima Trindade esteve desde as origens na raiz
da fé vida da Igreja, principalmente através
do Batismo. Ela encontra a sua expressão na regra da
fé batismal, formulada na pregação, na
catequese e na oração da Igreja. Tais formulações
encontram-se já nos escritos apostólicos, como
na seguinte saudação, retomada na liturgia eucarística:
"A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus
e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos
vós" (2 Co 13,13; cf. 1 Cor 12,4-6; Ef 4,4-6).
No decurso dos primeiros
séculos, a Igreja procurou formular mais explicitamente
a sua fé trinitária, tanto para aprofundar a
sua própria compreensão da fé, quanto
para defendê-la contra erros que a estavam deformando.
Isso foi obra dos Concílios antigos, ajudados pelo
trabalho teológico dos Padres da Igreja e apoiados
pelo senso da fé do povo cristão.
Para a formulação
do dogma da Trindade, a Igreja teve de desenvolver uma terminologia
própria recorrendo a noções de origem
filosófica: "substância", "pessoa"
ou "hipóstase", "relação",
etc. Ao fazer isto, não submeteu a fé a uma
sabedoria humana senão que imprimiu um sentido novo,
inaudito, a esses termos, chamados a significar a partir daí
também um Mistério inefável, que "supera
infinitamente tudo o que nós podemos compreender dentro
do limite humano" (Paulo VI, SPF 2).
A Igreja utiliza
o termo "substância" (traduzido também,
às vezes, por "essência" ou por "natureza")
para designar o ser divino em sua unidade; o termo "pessoa"
ou "hipóstase" para designar o Padre, o Filho
e o Espírito Santo na sua distinção real
entre si, e o termo "relação" para
designar o fato de a distinção entre eles residir
na referência de uns aos outros.
O dogma da Santíssima Trindade
A Trindade
é Una. Não confessamos três deuses, mas
um só Deus em três pessoas: "a Trindade
consubstancial" (Cc. Constantinopla II, ano 553: DS 421).
As pessoas divinas não se dividem entre si a única
divindade, mas cada uma delas é Deus por inteiro: "O
Pai é aquilo que é o Filho, o Filho é
aquilo que é o Pai, o Espírito Santo é
aquilo que são o Pai e o Filho, isto é, um só
Deus quanto à natureza” (Cc. de Toledo XI, ano
675: DS 530). "Cada uma das três pessoas é
esta realidade, isto é, a substância, a essência
ou a natureza divina" (Cc. de Latrão IV, ano 1215:
DS 804).
As pessoas
divinas são realmente distintas entre si. "Deus
é único, mas não solitário"
(Fides Damasi: DS 71). "Pai", "Filho”,
Espírito Santo" não são simplesmente
nomes que designam modalidades do ser divino, pois são
realmente distintos entre si: "Aquele que é o
Pai não é o Filho, e aquele que é o Filho
não é o Pai, nem o Espírito Santo é
aquele que é o Pai ou o Filho" (Cc. de Toledo
XI, ano 675: DS 530). São distintos entre si pelas
suas relações de origem: "É o Pai
que gera, o Filho que é gerado, o Espírito Santo
que procede" (Cc. Latrão IV, ano 1215: DS 804).
A Unidade divina é Trina.
As pessoas
divinas são relativas umas às outras. Por não
dividir a unidade divina, a distinção real das
pessoas entre si reside unicamente nas relações
que as referem umas às outras; "Nos nomes relativos
das pessoas, o Pai é referido ao Filho, o Filho ao
Pai, o Espírito Santo aos dois; quando se fala destas
três pessoas considerando as relações,
crê-se todavia em uma só natureza ou substância"
(Cc. de Toledo XI, ano 675: DS 528). Pois "todo é
uno (neles) lá onde não se encontra a opsição
de relação" (Cc. de Florença, ano
1442: DS 1330). "Por causa desta unidade, o Pai está
todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo;
o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito
Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no
Pai, todo inteiro no Filho" (Cc. de Florença 1442:
DS 1331).
Aos Catecúmenos
de Constantinopla, S. Gregório Nazianzeno, denominado
também "o Teólogo", confia o seguinte
resumo da fé trinitária:
Antes de todas as coisas, conservai-me este
bom depósito, pelo qual vivo e combato, com o qual
quero morrer, que me faz suportar todo os males e desprezar
todos os prazeres; refiro-me à profissão de
fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo. Eu
vo-la confio hoje. É por ela que daqui a pouco vou
mergulhar-vos na água e vos tirar dela.
Eu vo-la dou
como companheira e dona de toda a vossa vida. Dou-vos uma
só Divindade e Poder, que existe Una nos Três,
e que contém os Três de uma maneira distinta.
Divindade sem diferença de substância ou de natureza,
sem grau superior que eleve ou grau inferior que rebaixe...
A infinita conaturalidade é de três infinitos.
Cada um considerado em si mesmo é Deus todo inteiro...
Deus os Três considerados juntos. Nem comecei a pensar
na Unidade, e a Trindade me banha em seu esplendor. Nem comecei
a pensar na Trindade, e a unidade toma conta de mim (0r. 40,41:
PG 36,417).
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