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Com
estas palavras, o autor dos Atos dos Apóstolos narra
a experiência profunda da efusão do Espírito
Santo sobre os seguidores de Jesus. Evento de ontem e de hoje,
a solenidade cristã chamada Pentecostes, cujo nome
se refere à festa judaica homônima, marca a conclusão
plena do Mistério Pascal de Cristo.
O envio do Espírito,
prometido por Jesus durante seu itinerário histórico
(Lc 24, 49; Jo 16,7), conclui, de certa forma, a ação
salvífica da humanidade, realizada em Jesus Cristo.
O relato não
pretende, entretanto, ser historicamente comprovado, mas traduz,
de maneira simbólica, a percepção da
comunidade cristã diante de seu dinamismo evangelizador.
Cada palavra, gesto e símbolos, usados pelo escritor
sagrado, remete-nos à uma dimensão profunda
da vida de fé e merecem ser dissecados, para uma maior
compreensão do texto.
Antes, porém,
convém ressaltar que a plasticidade do evento narrado
por Lucas tem características singulares. Podemos ver
sua originalidade contrapondo-a ao relato do evangelista João,
no qual o momento da efusão do Espírito sobre
a comunidade dos crentes acontece no alto da cruz e no dia
da ressurreição (Jo 19,30; 20,21). Mas não
é demais afirmar que, em ambos os autores, existe uma
inspiração teológica comum: o envio do
Espírito Santo sinaliza o nascimento das comunidades
(eclesias) cristãs.
Mas voltemos ao relato
de Lucas. O texto, de magnífica inspiração,
serve de maneira paradigmática ao propósito
das comunidades de compreender sua vocação missionária.
De acordo com Lucas, foi no dia de Pentecostes que o Espírito
Santo invadiu a vida de todos da comunidade cristã.
O que significa relacionar a efusão do Espírito
com a festa de Pentecostes?
Pentecostes e Pentecostes
Pentecostes era a festa judaica que fazia memória do
evento da Aliança entre Javé e o Povo de Israel,
aos pés do Monte Sinai, momento em que a libertação
do Egito atingiu seu maior significado teológico. Entre
raios, trovões e tremores de terra, Javé entregou
ao povo judeu seu maior tesouro religioso, a Lei (cf. Ex 19).
Lucas reconstrói
esta experiência da história de Israel com referenciais
cristãos: no seu Pentecostes não há povo
eleito, pois todos são convidados a conhecer, em sua
própria língua (cultura), a Boa Nova de Jesus
Cristo. As imagens nas quais Deus se manifesta são
deveras semelhantes, mas a intenção significativa
do texto é absolutamente outra. O Pentecostes cristão
é a festa da universalidade da mensagem de salvação
de Cristo e supera todo particularismo judaico.
Os símbolos
usados
Como exemplo, podemos falar do símbolo do fogo, tão
caro ao universo de significados da experiência de vida
semita. O fogo manifesta a presença de Deus, bastando-nos
lembrar Moisés diante da sarça ardente (Ex 3,
1-6). O fogo é movimento, impulso, purificação
(Is 66,15-16). Todo crente entendia perfeitamente o significado
de ser invadido por divinas línguas de fogo. Já
não há como ficar impassível diante da
efusão do Espírito de Deus. É preciso
anunciar o Evangelho (At 2,4). Outros símbolos marcantes
são os que se referem à comunicação
provinda do Espírito: línguas, ruídos,
voz, palavras. É muito claro que o ator central do
Pentecostes é o mesmo Espírito Santo de Deus,
que entabula um diálogo profícuo com todos os
que se dispõem de coração a escutá-lo.
E a ação do Espírito através dos
discípulos produz abundantes frutos de conversão
(At 2,41).
Não se pode
deixar de mencionar o contraste intencional entre Babel e
Pentecostes, tão claramente expressos no texto. Para
os judeus, Babel foi sempre símbolo da desarmonia e
da confusão, a expressão do orgulho humano em
querer subir até a morada de Javé e dominá-lo.
Ao mostrar a harmônica variedade das línguas,
compreensíveis pelas nações reunidas
(referência aos lugares onde já existiam comunidades
cristãs florescentes), fica claro que uma nova fase
da história da humanidade está se iniciando.
Agora é Deus mesmo, que através do Espírito,
desce até os homens e mulheres de todos os cantos da
terra, unindo-os ao redor da uma Nova Aliança em Jesus
Cristo.
Pentecostes e Missão
E o que significa celebrar Pentecostes na nossa vida de cristãos?
Certamente significa recordar o dinamismo missionário
das comunidades primitivas, a ânsia saudável
de pregar a Boa Nova, a certeza absoluta de que Jesus Cristo
abençoava o projeto de formação de comunidades
vivas e atuantes em todas as partes do mundo conhecido. Pentecostes
é a solenidade da constituição carismática
da Igreja, a festa da universalidade do projeto de Redenção,
a celebração da igualdade entre os fiéis
e da diversidade dos dons dispensados sobre os homens.
Em Pentecostes, a Igreja
toma consciência de sua vocação missionária,
que se concretiza pelo testemunho qualificado, em nome de
Jesus Cristo, para todas as nações, culturas
e povos. A catolicidade e a ecumenicidade da Igreja é
pentecostal, ou seja, só é entendida a partir
da ação singular do Espírito sobre os
fiéis cristãos.
Pentecostes recorda-nos
o mistério pascal de Cristo e lhe dá garantia.
Pela liturgia, a Igreja, invocando o Espírito Santo,
torna presente, no sacramento da Eucaristia, o mesmo Cristo
morto e Ressuscitado, sob as formas do pão e do vinho.
É o Espírito que suscita vocações,
anima as comunidades, distribui dons e carismas. O Espírito
renova constantemente, desde Pentecostes, a vida eclesial.
Por isso, a liturgia de Pentecostes canta em uníssono:
“Envia teu Espírito Senhor e renova a face da
terra”. Os verbos, no presente, certificam nossa fé
na ação contínua e frutuosa do Espírito
no nosso meio. No Espírito é possível
compreender nossa Fé Trinitária.
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